Força e esplendor da primeira comunidade européia

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Força e esplendor da primeira comunidade européia

Mensagem  N. Ninfae em Seg Out 22, 2007 8:26 pm

Fonte: revista O Correio da Unesco, nº2, ano 1978.

Sobre o autor: PAUL-MARIE DUVAL do Instituto de França, é professor de Arqueologia e História da Gália no Collêge de France, Paris. Diretor da revista Gallia — Fouilles et Monuments Archéologiques en France Métropolitaine, publicada pelo Centro Nacional de Pesquisa Científica, já dirigiu escavações arqueológicas na França e no Maghreb. Ê autor de La vie quotidienne en Gaul (Paris, Hachette. 1952) e Paris antique (Paris, Hermann, 1961). Atualmente trabalha numa obra sobre a arte dos celtas em toda a Europa, a ser publicada em uma coleção dirigida por André Matraux.


Força e esplendor da primeira comunidade européia

Há dois períodos celtas na história da Europa: o dos antigos celtas da Segunda Idade do Ferro, contemporâneos da Grécia clássica, dos reinos de Alexandre e do Império Romano que pouco a pouco os relegou às llhas Britânicas, onde conservaram suas crenças pagãs até o século V de nossa era; e o dos celtas cristãos, descendentes dos primeiros, que viviam na Irlanda, na Escócia e em Gales. Parte dos celtas cristãos voltaram à Armórica (a Bretanha romanizada) a partir do século V e desenvolveram uma brilhante cultura literária que iria deixar marcas em toda a Idade Média ocidental graças às missões de monges irlandeses que iam até o coração do continente europeu.

Trata-se nos dois casos de povos do interior da Europa e da Europa insular, considerados pelos mediterrâneos como bárbaros no mesmo nível dos íberos da Espanha, dos germânicos, dos citas da estepe, dos dácios dos Cárpatos e dos trácios dos Bálcãs.

Qual era a força dos antigos celtas? Uma boa metalurgia do ferro, extraordinária capacidade de assimilação no campo técnico e cultural e um dinamismo demográfico e militar que lhes permitiu emigrar desde regiões que se encontram entre o Reno e o Vóltava (ou Moldau, rio da Tchecoslováquia que banha Praga e desemboca no Elba), que parecem ter sido o seu berço, até o Atlântico, o Mediterrâneo, o Adriático, o Mar Negro e a Ásia Menor, onde fundaram a Galácia. No entanto, não conheciam a escrita.

Qual era a força dos celtas cristãos? A ocupação de grandes ilhas não tomadas totalmente pelos romanos, o registro por escrito de uma herança literária oral de valor comparável ao das epopéias homéricas, a intensificacão in loco das características de sua civilização, o cultivo e difusão de uma fé ardente ilustrada pelos ermitãos que se rivalizavam com os dos “desertos orientais", a manutenção tenaz de um grupo de línguas e tradições que se conservam vivas até hoje. A eles devemos nada menos que a primeira grande literatura européia não latina, as epopéias ou sagas irlandesas e galesas da época pagã; e na Idade Média as lendas do Rei Artur e do Santo Graal com seus prolongamentos, os romances bretões, a personagem de Tristão, as leis de Maria de França...

Houve portanto na Europa, já antes do Império Romano, Bizantino, Germânico e Eslavo, um substrato de costumes e de língua celtas, desde a Irlanda até a Silésia. Mas os celtas antigos nunca constituíram uma nação nem fundaram um Estado ou um império que resistisse às conquistas romana ou germânica. Seu regime era tribal, do principado, de hegemonia e de federação à base de “clientelas" (ou seja, a adesão de pessoas ou de grupos pertencentes a outras tribos). A unidade política não ia além disso, e sua vitalidade se esgotava em conquistas quando se estabeleciam de forma sedentária, ou na vida mercenária quando o incentivo da aventura e lucro afastava os jovens de casa.

Constituíram-se então vários países celtas, divisão que acabou por acarretar o seu desaparecimento: Alemanha central e Boêmia, Gália oriental e depois Gália central e ocidental; grande parte da Espanha, onde so formou o povo “celtíbero", Itália do norte logo conquistada pelos romanos, regiões do Danúbio (da Áustria à lugoslávia), cuja densidade de população celta decrescia para o leste, Grã-Bretanha e Irlanda, para onde se dirigiram e se estabeleceram os emigrantes do continente; em suma, os rastros deixados pelos bandos gauleses na Bulgária, na Grécia, na Ásia Menor, e os objetos — senão os homens — que chegaram até à Silésia, à Polônia meridional e à Ucrânia. Tudo terminou antes do início da era cristã, exceto nas ilhas do Atlântico.

Os autores gregos e latinos falam dos celtas como adversários: esses bárbaros não ocuparam Roma no início do quarto século a.C. e não saquearam o santuário de Delfos um século mais tarde? Os celtas eram mesmo muito sensíveis ao apelo do lucro e ao vinho do Midi, corajosos e altivos, mas instáveis e versáteis. A Gália era um conjunto poderoso de populações que César só conseguiu subjugar depois de dez anos de guerra. A Itália setentrional recebeu o nome de “Gália Cisalpina" antes de se tornar romana. A Escócia e a Irlanda nunca foram invadidas por legionários romanos.

Precisamos portanto rever o conceito emitido sobre os antigos celtas e em particular sobre os gauleses por seus contemporâneos mediterrâneos. Somente a lingüística e a arqueologia podem nos valer nessa empresa de reabilitação histórica, que vem se processando lentamente desde o século passado, quando especialistas redescobriram os méritos de Vercingetórix.

A unidade celta, que hoje podemos reconhecer em territórios vastos e diversos, se manifesta de várias maneiras. Em primeiro lugar, havia uma língua comum a todos, com diferenças dialetais, que conhecemos graças às inscrições gaulesas, a algumas citações em obras de autores gregos e latinos, e a nomes do lugares espalhados por toda o Europa: Londres, York, Dublin, Paris, Lyon, Leyden, Tongres, Bonn, Viena, Genebra, Zurique, Bolonha, Milão e Coimbra são palavras celtas, como Singidunum (Belgrado) e Boihaemum (Boêmia). Assim, chegamos a conhecer centenas e milhares de palavras, das quais só foram decifradas algumas através de comparações com formas antigas do irlandês, do galês e do bretão e pela correspondência com línguas mortas indo-européias mais próximas de nós, como o latim e o germânico.

Felizmente a literatura celta medieval nos oferece material lingüístico extremamente rico. Revela também predileção pelo sobrenatural, uma poesia feita de sonho e de fantasia, de encantamento, um irrealismo radicalmente oposto ao classicismo mediterrâneo. Essas tendências confirmam a posteriori a existência de um espírito comum aos celtas de todos os tempos. Hoje podemos descobrir expressões estéticas dessa mentalidade na arte sutil e requintada dos celtas antigos: armas decoradas, ornamentos preciosos, cerâmicas, esculturas, cristais e moedas, arte sumamente original e de um estilo curiosamente “moderno".

Essa arte celta antiga é designada por arte lateniana (de La Téne, localidade suíça perto do lago de Neuchâtel, onde foram feitas importantes descobertas arqueológicas que deram nome à Segunda Idade do Ferro européia). Trata-se de uma arte gráfica e plástica baseada principalmente em combinacões de linhas curvas, com motivos vegetais tirados das decorações greco-latinas e estilizações figurativas imaginárias, que se perpetuariam nas Iluminuras dos manuscritos irlandeses e britânicos, nas cruzes e estelas esculpidas da Irlanda e até em certas criações da arte romana.

Nesse domínio cultural por excelência voltamos a encontrar a unidade e a continuidade dos celtas. A audácia do desenho de certas moedas gaulesas demonstra já uma capacidade de abstração que vem se repetindo de tempos em tempos até hoje na arte européia.

Existe pois uma arte lateniana diferente de qualquer outra da Antiguidade. É uma arte extremamente refinada, principalmente em objetos pequenos, que quebra a simetria dos modelos classicos com uma liberdade de criação que reflete a independência de espírito dos celtas, sempre prontos a reagir contra toda convenção. Mas é também uma arte rigorosa em suas combinações de curvas e contracurvas geralmente traçadas a compasso. E na magia de seus objetos de arte e de suas decorações predominam a abstração, a metamorfose e a criação de seres imaginários.

O politeísmo celta é também original e compreende deuses da natureza: forças cósmicas, rios, montanhas, animais; divindades monstruosas: como deuses de três caras, a serpente com cabeça de carneiro, o deus com chifres de cervo, gênios ou demônios pequeninos que poderíamos chamar de gnomos ou duendes; deusas coletivas, geralmente sem nome (as "Mães“ que já prenunciam as Fadas); e uma grande quantidade de deuses locais. O Senhor do Trovão também está presente em todo o mundo celta.

Essas divindades arcaicas se assimilaram a algumas divindades romanas, e na Irlanda aos santos cristãos — o que prova a continuidade profunda das crenças mais caras ao homem.

Muitos lugares hoje habitados foram escolhidos primeiro pelos celtas. É o caso da maioria das cidades francesas, que são de origem gaulesa. Com ou sem alterações topográficas, elas ainda são importantes, como Lutécia, construída numa ilha do Sena no terceiro século a.C. pelo povo celta dos parísios e reconstruído na época galo-romana, que retomou o nome de sua tribo durante o Baixo Império, sob a forma de "Paris" do oppidum celta à cidade romana e à metrópole moderna geralmente há uma evolução contínua.

Os povos europeus, sejam ibéricos, latinos, germânicos ou anglo-saxões, húngaros ou eslavos, mesmo sem saber, têm em sua formação um elemento étnico e cultural celta que pode ser, entre as forças do passado que a ciência nos revela, um dos vínculos de um parentesco que se mostra pouco a pouco.

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