À mesa com os celtas, por Geneviève de Ternant (excerto)

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

À mesa com os celtas, por Geneviève de Ternant (excerto)

Mensagem  N. Ninfae em Seg Out 22, 2007 8:32 pm

Fonte: revista História Viva nº11, Editora Ediouro, Segmento-Duetto Editorial.


À mesa com os celtas

A partir do ano 1000 a.C, os povos protocélticos dominaram a maior parte do continente europeu, mas os celtas propriamente ditos só apareceriam três séculos depois na Áustria, em Hallstatt, onde extraíam o sal da "Montanha Salgada". Entre os utensílios e vestimentas encontrados nas galerias por eles cavadas, havia folhas secas de "pestwurt", uma planta medicinal usada ainda hoje pelos habitantes da região no tratamento das doenças dos mineiros, assim como restos de refeições pré-históricas na forma de fragmentos de esqueletos de animais.

O arqueólogo Johaan Georg Ram Sauer, que passou 17 anos vasculhando o sítio, encontrou em sepulturas escavadas, além de armas, ornamentos maravilhosos, enócoas e caldeirões de bronze que comprovavam uma arte da mesa muito evoluída. Nessa época, apareceram na Europa os primeiros objetos de ferro que permitiram explorar as colinas e desmatar os bosques; as culturas se ampliaram e os estabelecimentos celtas floresceram. Expulsos do torrão natal pela pressão demográfica e a necessidade de encontrar novas terras aráveis, os celtas transmitiram às outras populações a charrua pesada com relha de ferro, que revolvia mais profundamente a terra que a de relha de madeira, possibilitando as colheitas que enriqueceram os chefes celtas. Cultivavam o trigo e o painço, assim como a cevada e a espelta, ao mesmo tempo parecida com o trigo e com a cevada, "produto de pobre" que remonta a 3 mil anos antes da nossa era e que a culinária moderna redescobriu.

Os celtas cultivavam também a fava e o grão-de-bico, a lentilha e o tremoço, as hortaliças (cenoura, erva-benta, escorcioneira, rabanete preto e branco, pastinaca), as plantas têxteis e oleaginosas (linho, cânhamo, colza, dormideira), os condimentos (cominho, alho e mostarda), abundantes frutos com pevides (maçã e pêra silvestres) e talvez a uva silvestre e até mesmo videiras plantadas. Nós somos muito mal informados sobre a culinária gaulesa, mas o leite misturado com sangue parece ter sido um dos manjares prediletos.

Graças à levedura, conheciam o pão fermentado, embora continuassem consumindo a bolacha; esta estava fadada a perdurar devido às tendências arcaizantes de todos os cultos. A maior parte dos cereais que deviam ser cozidos - como o painço, o sorgo, o trigo-sarraceno, assim como as gramíneas silvestres –, não se adequava à panificação. A cevada e a aveia davam resultados medíocres. No entanto, ao longo dos séculos, fizeram-se experiências com as mais diversas farinhas (de lentilha, de aveia, de cevada, de castanha, de glande, mais tarde a de batata), utopias diversas vezes retomadas em tempos de escassez, com resultados bem decepcionantes. O trigo amidoado foi o primeiro cereal realmente panificável. A farinha de aveia ficou reservada para as sopas e os mingaus. Conservou-se o pão de centeio em algumas regiões da Europa, sobretudo na Alemanha; quanto ao trigo-sarraceno, era utilizado nos crepes e continua sendo uma das especialidades da Bretanha e da Normandia.

Os celtas criavam rebanhos de bois, carneiros, cabras e principalmente porcos que, em estado semi-selvagem, se alimentavam das glandes (fruto do carvalho) das imensas florestas. Também criavam aves, notadamente o ganso, muito apreciado. Já fixados no norte do Mediterrâneo, ocuparam um vasto arco que se estendia da Espanha à Europa Oriental. Os povos vivisel e sântones habitavam as margens do rio Garona e estabeleceram um entreposto comercial onde hoje fica Bordeaux. Nas proximidades do rio Sena, viviam os séquanos, sendo que, ao longo do rio Loire e no oeste daquela que os romanos denominariam a Gália, os cadurcenses fiavam o linho, os rutenos trabalhavam a prata, e os pretocórios, o ferro. O rio Reno aglomerava numerosas tribos. De uma vitalidade extraordinária, elas deram provas de um engenho raro e de um agudo tino comercial.

Os celtas tinham reputação de prodigiosos beberrões e comilões. Quando um soberano dava uma festa, era preciso preparar um espaço de 4 km² para receber todos os convidados. Por certo, o cardápio desse festim se compunha de enormes quantidades de guisado de carne de porco ou de vaca, de caça ou peixe, de manteiga e queijos, de coalhada e de mel regado a vinho, de hidromel e cerveja.

Conforme o historiador grego Ateneu, os convivas comiam com os dedos "propriamente, mas de modo bestial, pegando com ambas as mãos um bom pedaço de carne e devorando-o a dentadas". Usavam um punhal para cortá-la e bebiam todos do mesmo copo, que passava de mão em mão, não mais de um gole por vez, se bem que repetidamente. O povo tomava uma cerveja misturada com mel chamada "corma". Os senhores, por sua vez, bebiam o vinho servido em vasos ricamente ornados. O historiador Deodoro de Sicília indica que, terminado o jantar, os convidados se deitavam no chão “para dormir entre os companheiros de rega-bofe".

Ateneu nos deixou a crônica de sua viagem à Gália, no início da era cristã, por intermédio de Possidônio, o Estóico. "Eles se sentam no feno e comem muita carne cozida ou grelhada no espeto ou na brasa. Devoram-na como loucos, segurando membros inteiros nas mãos. Quando encontram uma parte mais dura, arrancam-na com uma pequena espada que costumam levar embainhada na cinta; os que moram perto do mar comem também peixe com sal, vinagre e cominho, mas sem azeite, pois não têm esse costume."

Convém relativizar este último ponto: o domínio céltico era vastíssimo, e a oliveira, importada pelos foceenses, brotava em todo o litoral mediterrâneo, onde o azeite e a azeitona eram muito apreciados.

Ainda que fossem grandes comilões, os celtas condenavam a obesidade a ponto de puni-la. Os gauleses viviam em grande parte da caça, pela qual tinham verdadeira paixão. Na sua mesa figuravam os cervos e os javalis, assim como os pássaros e a caça miúda. Os gauleses sabiam salgar e defumar a carne de porco; sua charcutaria era de tal modo apreciada que Roma a comprava em grandes quantidades. Outro produto gaulês que gozava de renome: a cebola, igualmente exportada a Roma.

As bebidas fundamentais eram a cerveja e o hidromel. A primeira devia ser importada do estrangeiro: de fato, eles ainda não conheciam o uso do lúpulo. Consumiam também a sidra ("pomatum"), inclusive a de pêra ("piratum"). Gostavam muito de vinho - quando o conseguiam, pois tinham de importá-lo da Itália ou da região de Marselha, onde os foceenses haviam introduzido a viticultura. O vinho era transportado em ânforas vedadas com resina para que ficassem herméticas, pois eram porosas. Foram os gauleses que inventaram os tonéis de madeira, feitos de aduelas cingidas de aros de ferro, para conservar e transportar as bebidas. Essa invenção foi rapidamente adotada pelo mundo romano.

_________________
Slán,
Laise.
avatar
N. Ninfae
Admin

Mensagens : 12
Data de inscrição : 18/10/2007
Idade : 33
Localização : Rio de Janeiro - RJ

Ver perfil do usuário http://community.livejournal.com/gaeassail/

Voltar ao Topo Ir em baixo

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum