A cultura que dominou metade da Europa, por Jean Markale

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A cultura que dominou metade da Europa, por Jean Markale

Mensagem  N. Ninfae em Seg Out 22, 2007 8:43 pm

Fonte: revista História Viva nº11, Editora Ediouro, Segmento-Duetto Editorial.


A cultura que dominou metade da Europa

Para a história, os celtas surgiram — bem timidamente, é verdade — por volta de 500 a.C, segundo testemunho deixado pelos gregos, depois pelos romanos. Mas isso não significa que eles não tenham existido antes dessa data: as descobertas arqueológicas mais recentes indicam que a civilização estaria em algumas regiões da Europa desde o final da Idade do Bronze, isto é, entre 900 e 700 a.C. Fala-se até em “protoceltas", sem que se possa definir com precisão a qual etnia pertenciam, nem sua área de ocupação.

A aparição dos celtas, não importa qual seja sua especificidade, corresponde ao início da utilização do ferro, o que faz com que, com freqüência, se confunda a civilização céltica com a civilização da Idade do Ferro. Essa confusão só é aceitável para a Europa do noroeste pois, na mesma época, outros tipos de culturas se manifestavam no nordeste do continente e no litoral do Mediterrâneo, particularmente nas penínsulas helênica, italiana e ibérica. Ainda assim, seria necessário desconfiar de qualquer generalização: as áreas de ocupação dessas culturas são incompatíveis com a cronologia geral.

Pode-se distinguir dois grandes períodos na Idade do Ferro céltica: um primeiro, chamado de Hallstatt (nome de um local na Áustria) e um segundo, conhecido como período de La Tène (nome de um local suíço no lago de Neuchâtel), que se divide em sub-períodos e se estende pela era cristã - às vezes até a Idade Média, nas Ilhas Britânicas. Pode-se observar uma infinita variedade, tanto do ponto de vista cronológico como geográfico, do que se denomina “civilização céltica": na realidade, seria melhor falar sobre “civilizações célticas", para dar conta dessa evolução.

Os celtas eram indo-europeus. Essa afirmação, tantas vezes repetida, é ao mesmo tempo verdadeira e falsa, pois não existiu nenhuma comunidade racial indo-européia. O que existe em comum fisicamente entre um sueco, um francês provençal e um indiano? São todos indo-europeus, mas somente suas línguas, técnicas originais, estruturas mentais e sociais permitem estabelecer, se não uma filiação, aos menos uma vinculação entre eles. Da mesma maneira, praticamente não se consegue distinguir os aspectos físicos ou morfológicos de um grande irlandês ruivo, um pequeno bretão atarracado e um francês moreno da região de Auvergne. No entanto, os três são celtas.

Não existiu, portanto, uma raça céltica, como também nunca houve um império céltico nos moldes romanos: o que uniu os celtas foi uma comunidade de língua, religião, estruturas sócio-culturais e, em última análise, um estado de espírito. Aqueles que chamamos de celtas não passavam, na sua origem, de uma pequena elite guerreira e intelectual que se sobrepôs, em um dado momento, aos povos que habitavam a parte ocidental da Europa. Essa elite “celtizou" as populações nativas e arrastou-as em sua agitação política, cultural e religiosa. Assim, nasceram as civilizações célticas.

Contrariamente a uma opinião persistente, os celtas não eram pessoas do mar: tanto a mitologia quanto os achados arqueológicos provam que eles eram gente da terra, mestres no pastoreio, na domesticação perfeita do cavalo, na metalurgia e agricultura. E, sem ir muito além do século V a.C, pode-se afirmar que vieram todos da Europa central, mais precisamente da região do Harz (atual Alemanha). Essa região parece ser o centro de onde partiram, num intervalo de tempo bastante longo, inúmeras tribos autônomas, à procura de um lugar para se estabelecer.

A razão dessa dispersão parece ser fácil de deduzir: o crescimento da população em uma terra que não podia mais fornecer os recursos necessários para sua sobrevivência. Uma hipótese para essa “corrida para o oeste“ pode estar nas motivações religiosas - para não dizer mágicas –, que tiveram um papel importante, pois os “países do sol poente“, na mitologia céltica, são sempre aqueles do Outro Mundo, onde o ser humano chega ao fim. Nesse ponto, os grandes mitos dos celtas estão de acordo com as datações científicas da arqueologia contemporânea. Mas, se tomarmos o Harz como centro da origem celta, é preciso notar que essa migração para o oeste só aconteceu verdadeiramente a partir do século V a.C, e correspondeu à segunda Idade do Ferro, conhecida como período de La Tène.

No início, essencialmente entre 700 e 500 a.C, a expansão céltica realizou-se em espiral, em torno de um núcleo primitivo. Estendeu-se pela Alemanha ocidental (Baden-Württemberg), Baviera, Boêmia, Morávia (com seus prolongamentos no sul da Polônia), Hungria (futura Panônia) e Áustria (futura Nórica romana), particularmente rica em testemunhos arqueológicos dessa época - em especial ao famoso sítio de Hallstatt, próximo a Salzburgo, que deu o nome a esse tipo de civilização.

Mas essa presença, certamente forte, só foi provada pela arqueologia e, em menor medida, pela toponímia (Boêmia, Viena e Ratisbona são nomes de origem céltica). Não existem documentos sobre esse período. Portanto, não é fácil esboçar um panorama completo dessa implantação. Somente uma reconstituição conjectural a partir de informações arqueológicas permite afirmar a existência de diversos principados, independentes uns dos outros, dirigidos por chefes aparentemente muito poderosos — em todo caso, extremamente ricos (o mobiliário funerário comprova isso) —, que reinavam sobre uma ativa população de criadores de animais e artesãos metalúrgicos. Aparentemente, a sociedade céltica primitiva era essencialmente pastoral, já que muitas características desse tipo de estrutura persistiram até épocas mais recentes - particularmente nas criações e na ausência de fronteiras permanentes.

Ao mesmo tempo, as técnicas de extração de metais e o trabalho com esses materiais tendiam a desenvolver uma verdadeira classe de ferreiros e ourives que produziam jóias, ornamentos religiosos ou guerreiros e, principalmente, armas de qualidade excepcional. Assim, aparentemente, foi criada uma espécie de aristocracia artesanal, às vezes rival da classe guerreira, mas indispensável a esta, pois era a fornecedora das armas das quais necessitavam.

Também foi graças a esses artesãos que começou a se desenvolver uma agricultura mais produtiva, principalmente com o emprego de charruas com rodas de ferro e de diferentes instrumentos agrícolas. A riqueza e a prosperidade dos estabelecimentos de Hallstatt criaram condições favoráveis para o crescimento da população. Além disso, encurralados em regiões montanhosas cobertas de florestas, os celtas quiseram aproveitar para colocar em prática suas inovações técnicas relacionadas à agricultura em terrenos mais propícios: daí a migração, a partir dos rios Danúbio e Reno, para grandes planícies da Europa do nordeste.

Ainda por meio de achados arqueológicos, verificamos que essa investida se dirigiu para o Báltico, mar do Norte, canal da Mancha e Atlântico, inundando os países conquistados com o estabelecimento de um novo tipo de civilização, que é classificada com o nome de La Tène.

Após atravessar o rio Reno, os celtas dirigiram-se para o mar: alguns atravessaram o canal da Mancha, ocupando a Grã-Bretanha e chegando até a Irlanda; outros, indo para o sul, passaram pelos Pirineus e chegaram à Galícia e ao Mediterrâneo. Mas é provável que outros celtas tenham deixado seu habitat primitivo, atravessando o Brenner e se instalando na rica planície do Pó, formando o que os romanos chamavam de Gália Cisalpina. No século V a.C., os celtas ocupavam praticamente a metade da Europa.

Resta saber como se deu essa ocupação. Apesar de historiadores gregos assinalarem a presença dos celtas em tempos longínquos, não forneceram nenhuma informação mais específica sobre os acontecimentos. É provável que tenham ocorrido batalhas contra diferentes povos autóctones, de curta duração: os guerreiros celtas deviam ser pouco numerosos, mas possuíam inúmeras vantagens, como, por exemplo, a espada de ferro, mais resistente que a de bronze, e pequenos cavalos rápidos. Falou-se sobre “cavalaria", a propósito dessas invasões célticas. Mas é preciso compreender o sentido da palavra “cavalaria". De acordo com o testemunho de César, de gregos e irlandeses e dos baixo-relevos da alta Idade Média irlandesa (em particular a base da cruz das Escrituras, em Clonmacnoise), pode-se pensar que os celtas combatiam com leves charretes, puxadas por dois cavalos. No entanto, seria estúpido acreditar que os celtas conquistadores tenham massacrado as populações encontradas em seu caminho: eles colonizaram-nas, impondo-lhes sua língua, religião e estruturas sócio-culturais. De todo modo, eles precisavam delas. Assim sendo, não ocorreu uma assimilação, mas sim uma síntese pois, como ocorreu com a Grécia conquistada por Roma, os vencidos influenciaram os vencedores.

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