Em busca dos Celtas - Fontes e definições

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Em busca dos Celtas - Fontes e definições

Mensagem  Solas na Gealaí em Qui Out 25, 2007 8:29 pm

Trecho retirado do livro "Os Celtas" - T.G.E. powell

As mais antigas referências aos Celtas, de que há memória, são curtíssimas e absolutamente casuais. Heródoto, escrevendo em meados do século V ªC., menciona-os a propósito da localização da nascente do Danúbio, e Hecateu, que se notabilizou um pouco antes (cerca de 540-475) mas cuja obra só conhecemos através de citações posteriores, descreve a colônia grega de Massília (Marselha) como tendo sido fundada na terra dos Ligures, perto da terra dos Celtas. Hecateu menciona, noutro ponto, uma cidade celta chamada Nirax, que se julga poder melhor identificar-se com Noreia, na antiga região de Noricum, mais ou menos equivalente à moderna província austríaca da Estíria.

Na grande obra conservada de Heródoto As Histórias, não eram preocupações principais do historiados nem a foz do Danúbio nem a existência dos Celtas. O que foi sem dúvida uma grande infelicidade, pois os seus relatos dos povos que conhecia bem, especialmente dos Citas, mostraram-se, à luz comprobatória da arqueologia, de um valor e exatidão inexcedíveis. Mas o que nos parece realmente importante neste caso é ele, tal como, presumivelmente, Hecateu, já poder referir-se aos Celtas como a um povo que dispensava para os Gregos quaisquer esclarecimentos especiais.

Digamos mais algumas palavras a propósito destas referências passageiras de Heródoto aos Celtas, muito embora ele próprios tivesse afirmado, expressamente, serem inseguras as informações que dispunha sobre o extremo ocidental da Europa. Duas vezes afirma que Danúbio nascia nos territórios celtas, e que eles próprios era o povo mais ocidental da Europa, à parte dos Cinetas, que parece teriam ocupado o Sul de Portugal.

Na primeira referência diz Heródoto que a nascente do Danúbio ficava perto de Pirene, nome relacionado com Pirenéus, mas que se sabe ter sido um entreposto comercial grego na costa nordeste de Espanha. Faz ainda o comentário de que os Celtas viviam para lá das Colunas de Hércules (o estreito de Gibraltar), mas dificilmente poderia estar tão enganado a ponto de julgar que Pirene também ficasse para lá delas. Tomadas no conjunto, as provas de haver Celtas na Península Ibérica fornecida por Heródoto indicam já lá estarem disseminados e serem, indubitavelmente, o mesmo povo que habitava o hinterland de Massília, e muito provavelmente a região de Noricum.

Diga-se de passagem que o nome Celtici sobreviveu no Sul da Espanha até os tempos romanos, e que parece ter sido esse o único caso em que o nome deste povo tão espalhado conseguiu ficar registrado na geografia.

Por muito mal informado que Heródoto estivesse sobre a localização do curso inicial do Danúbio, a crença da formação desse rio em território celta pode não se ter apoiado, meramente, na sua suposta associação com Pirene. Sobre o Danúbio Inferior dispunha Heródoto de informações muito mais completas. Sabia que podia ser subido por barcos numa grande extensão e que atravessava terras habitadas em todo seu curso. Parece mais que provável que, por esta via, chegassem notícias da existência de Celtas ao longo do curso superior. Não seria ilegítimo deduzir daí ou referirem-se ambas as fontes de informação a uma e mesma localização. Na verdade,a s provas arqueológicas vão ao ponto de mostrar ter sido a região do Danúbio Superior a pátria dos Celtas, de onde uns tantos deles passaram primeiro para a Espanha, e um pouco mais tarde para a Itália e para os Bálcãs.

Antes de darmos um resumo de todas as referências históricas arcaicas que se referem aos Celtas, vale talvez a pena considerar as razões por que o seu nome estaria, como se crê, tão espalhado neste período. O que poderia motiva-lo?

Parece seguro deduzir-se que, no tempo de Heródoto, os Gregos consideravam os Celtas como um grande povo bárbaro que vivia a oeste e a norte do Mediterrâneo Ocidental e para além dos Alpes. Éforo, escrevendo no século IV aC., incluía os Celtas entre os quatro grandes povos bárbaros do mundo conhecido (os outros três eram os Citas, os Persas e os Líbios) e o geógrafo Eratóstenes, no século seguinte, dava-os como espalhados pela Europa Central e Transalpina. Ora, é claro que, quando Heródoto se referia a outros povos bárbaros, como os Citas ou os Getas, estava a reconhecê-los como nações distintas, ou como confederações tribais. Interessava-lhe tudo o que pudesse saber das suas instituições políticas, usos e costumes. Os Gregos sempre tiveram em pouca conta todas as línguas, exceto a sua, e nunca se interessariam, portanto, pelas distinções lingüísticas entre os bárbaros. Parece razoável admitir que Heródoto conhecesse os Celtas baseando-se apenas em descrições alheias, sem nunca ter posto a vista em nenhum, maneira como teria identificado outros povos bárbaros. O termo “Celtas” justifica-se, pois, num sentido etnológico próprio, e não deveria ser, necessariamente, restrito a significar “de língua céltica”, que é uma concepção do espírito acadêmico de tempos já muito modernos, derivada dos estudos lingüísticos pioneiros de George Buchanan )1506-1582) e de Edward Lhuyd (1660-1709).

Não há de fato dúvida de que, durante quatro séculos, desde Heródoto até Júlio César, os Celtas eram reconhecíveis, para os seus vizinhos letrados do Sul, pela maneira de viver característica, organização social política e aparência; três fatores que, por mais geral ou simplesmente mal interpretados que sejam, sempre representaram a expressão da estranheza mútua entre grupos populacionais em contato.

Pelo que respeita ao próprio nome em si, sempre os Gregos o escreveram Keltoi, reproduzindo foneticamente à pronúncia nativa. À parte o uso deste nome em Espanha, num contexto tribal local, como já se referiu, no resto parece ter sido usado de maneira lata, a ponto de incluir tribos de nomes diferentes; mas esta prova baseia-se em fontes muito posteriores a Heródoto. O nome de Celta nunca foi aplicado aos povos da Grã-Bretanha e da Irlanda pelos autores antigos, que se saiba, e não há prova alguma de os nativos o terem jamais aplicado a si mesmos. Isto, é claro, não exclui o caso de alguns habitantes insulares terem sido celtas: terá apenas de se apoiar em provas de outro gênero. Na maioria dos casos de aplicação popular moderna, as palavras “celta” ou “célticos” entraram em uso como conseqüência do desenvolvimento do movimento do Romantismo,a partir de meados do século XVIII. Tomaram-se estas palavras do uso filológico que lhes tinham dado Buchanan e Lhuyd, e, é claro, foram mal aplicadas a questões tão diversas como arte cristã insular, antropologia física, e às mais variadas coisas relacionadas com “vida popular”.

O segundo ponto a esclarecer é o de como é possível provar que os Celtas da Antiguidade falavam realmente línguas aparentadas com aquelas línguas sobreviventes que em terminologia filológica são designadas por célticas. Isto pode demonstrar-se com a maior facilidade, invocando os clássicos, pelos nomes dos chefes tribais e das tribos, e por palavras e termos registrados como célticos. Este corpo de material lingüístico pertence ao ramo céltico da família das línguas indo-européias, e em muitos casos é possível mostrar terem as palavras outrora registradas sobrevivido nas línguas medievais e modernas do grupo céltico.

Há outras fontes fundamentais sobre a língua dos antigos Celtas, Em primeiro lugar há a existência de um grande número de inscrições incluindo nomes e palavras célticas, mas escritas principalmente em latim ou, mais raramente, em grego. Foram inscritas em altares e outros monumentos das regiões celtas incorporadas no Império Romano, que têm sido encontrados em sítios tão afastados como na Muralha de Adriano e na Ásia Menor, em Portugal e na Hungria. A segunda fonte é semelhante à primeira. É numismática, mas muito mais restrita no espaço. É particularmente valiosa devido às moedas com nomes inscritos, lingüisticamente célticos, que é possível provar à luz da arqueologia e da história terem sido emitidas por reis ou tribos celtas.

A terceira ordem de provas baseia-se em topônimos. Trata-se com tanta freqüência de nomes de rios, ou de outros acidentes topográficos, como de núcleos populacionais ou de fortificações. Em muitos casos os clássicos permitem estabelecer uma ligação com os Celtas, mas o testemunho que representa a distribuição dos topônimos célticos na Europa Ocidental e Central coincide exatamente com as regiões em que se sabe terem os Celtas tido maior força e uma influência mais duradoura. Há uma forte interpenetração de topônimos célticos, teutônicos, eslávicos e outros, e de uns derivados de outros, mas trata-se de um tema filológico altamente especializado, e um mapa de confiança dos topônimos célticos na Europa ainda está por fazer. Tudo o que ousamos aqui dizer é que, tirando as Ilhas Britânicas, topônimos celtas sobreviveram largamente em França, Espanha e Norte da Itália, e mais escassamente, entre o Danúbio e os Alpes, e para leste até Belgrado. No Noroeste da Alemanha, são comuns no Reno e estendem-se até ao Weser, talvez até o Elba. Compreende-se, claro está, que a distribuição toponímica, tal como sobreviveu, só pode dar uma imagem parcial da distribuição original, e que muitos fatores podem ter contribuído tanto para a sobrevivência como para o completo esquecimento deste gênero de testemunho.

Ao introduzir o termo “céltico” no estudo das línguas, Buchanan foi o primeiro a mostrar, apoiando-se em fontes clássicas, serem as línguas sobreviventes gaélica e galesa (Welsh) descendentes da fala dos Antigos Celtas. O vocábulo, filologicamente, baseia-se, portanto, na apreciação etnológica feita por Heródoto e seguida por historiadores e geógrafos posteriores.

A grande projeção do fator geográfico que ressalta de todos os aspectos atrás mencionados torna oportuno apresentarmos agora o ponto de vista arqueológico sobre a realidade dos celtas.

Estritamente falando, a arqueologia é o estudo dos restos materiais da atividade humana do passado. Pode visar a cultura material de povos ou períodos completamente históricos, ou períodos e regiões para lá do limite das civilizações letradas. Neste último caso é uma ciência muda, no sentido em que, por si própria, não pode invocar uma linguagem nem elucidar aquelas contingências humanas particulares, refletidas nas mudanças e acasos da cultura material anônima que está a revelar. O fim da investigação arqueológica moderna é mais reconstruir, no mais alto grau possível, e interpretar a vida das comunidades antigas do que chegar a uma mera classificação de objetos e monumentos; mas atribuem-se por vezes à arqueologia feitos que, pela sua própria natureza, não poderia realizar. Daqui resulta, pelo que se refere aos Celtas, que à medida que estes nos vão surgindo de entre a variedade de testemunhos que temos vindo a discutir vamos tendo de começar por demonstrar a existência de uma identidade arqueológica no decurso dos séculos que vão de Heródoto a Júlio César, que representam aqui os pontos fixos superior e inferior deste quadro histórico. A arqueologia mostra-nos de fato uma província, de grande cultura material para aqueles séculos, a disseminar-se por toda a área já indicada. Estes vestígios de uma civilização bárbara acham-se firmemente ligados aos de tribos celtas conhecidas, como no caso do Norte da Itália a partir do séc. IV a C., do Sul da França a partir do séc. II, e em todo o resto do Império Romano em expansão a partir do séc. I a.C.

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