As Vestes da Luz – Uma sociedade Subversiva

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As Vestes da Luz – Uma sociedade Subversiva

Mensagem  Solas na Gealaí em Qui Out 25, 2007 8:33 pm

Texto retirado do livro "Uma Luz Sobre Avallon" - Maria Nazareth Alvim de Barros

“Não são, entretanto, somente os ritos que apresentam reminiscências primitivas. A estrutura da sociedade celta também nos remete às civilizações pré-históricas.

Nas sociedades celtas, a noção jurídica de estado, tal como a conhecia o direito romano, não existia. Para os celtas, a fidelidade só podia afirmar-se em relação a um homem, a uma família ou ao clã, mas nunca a uma noção abstrata como “estado”. A primeira unidade social celta recebia o nome de tuath, que significava tribo, clã. O que importava dentro das tuath eram as fine, ou famílias. Estas famílias apresentavam, muitas vezes, traços nítidos da família uterina. Esta filiação uterina interferia na educação e preparação dos jovens. Efetivamente, a criança pertencia ao clã da mãe, mas como a mãe vivia no clã do pai, a criança, por um bom período de tempo, era levada para o clã da mãe. A criança ficava sobre a proteção de pessoa qualificada (um membro da família materna ou um intelectual, o druida), que se tornava desta forma um segundo pai, que chamamos pai espiritual. Essa instituição, que recebe o nome anglo-normano de fosterage, se manteve por muito tempo nos países celtas. Existem exemplos de sucesão em linha materna, e mesmo até de um certo “matriarcado” nas famílias lendárias da Irlanda. As sociedades tendiam evidentemente para a monogamia, mas a poligamia era aceita. Havia normalmente uma matrona, mas havia também outras mulheres ou esposas. O divórcio entre eles era normal, assim como o casamento anual.

A Tuath constituía, na sociedade celta, o agrupamento de células, fine, que se sustentavam por si só. Seus membros eram parentes solidários, nutridos pelo mesmo leite, vivendo sobre o mesmo solo, descendendo de um mesmo ancestral, indicado por um nome que poderia ser um nome gentílico ou um nome coletivo. Algumas instituições celtas conservaram vestígios do princípio simbólico que envolvia determinados animais, e podemos observar isso nos textos épicos e míticos onde os personagens possuem interdições alimentares; ligam-se pela analogia do nome a certos animais ou estão sob o efeito de palavras mágicas que os proíbem de matar ou comer a carne destes animais. Cuchulainn, o protótipo do herói celta, por sua força, seus feitos incomparáveis, seus nascimentos maravilhosos, tem seu nome ligado ao cachorro. Conta a lenda que Cuchulainn, chegando à casa de Culann, o ferreiro, mata seu cão, de guerra. Cuchulainn substitui o cão (fato compreensível entre os celtas já que na sua simbologia o cão é associado ao guerreiro) e ercebe seu nome definitivo – Cuchulainn. Cão de Culann. O cão torna-se seu similar e lhe confere as interdições mágicas que o proíbem de matar ou comer a carne do animal.

Um outro exemplo do lendário irlandês é o do herói Diarmaid O’ Duibhne, arquétipo do herói trágico francês Tristan. Diarmaid liga-se ao porco selvagem. Seu irmão morto foi transformado em javali para sobreviver. Desta forma, Diarmaid tem sua existência ligada à existência do poço selvagem, ficando impedido de matá-lo ou comer sua carne.

A tuath possuía vida própria, e se bastava a si mesma. A terra era propriedade coletiva, todos os membros participavam das obrigações e dos lucros. Cada tuath possuía uma hierarquia bem determinada, que ia do agricultor ao druida. Os bens eram comunitários. Cada tuath formava uma socieadde à parte. O comércio era feito na base de trocas de mercadorias. Não havia moedas, a sociedade era totalmente rural. Enfim, a tuath assemelhava-se quase a uma autarquia. Essa total independência da tuath explica a impossibilidade de unificação politica, que foi o traço dominante da civilização celta.

Sendo as tuath assim constituídas, podemos dizer que as células da sociedade celta eram de ordem politico-domestica. Suas funções politicas eram da mesma natureza que as da família. Não havia estado que interviesse na administração, nem nas transações entre elas. Não havia cidades. Não havia ministério publico para o castigo dos culpados. A inexistência do estado aumentava desmesuradamente o direito privado e tinha por corolário a quase inexistência de todo direito público. Essas sociedades, que se organizavam em estado tribal, possuíam um único direito privado, que funcionava tanto para o civil qto para o criminal. As contestações eram julgadas quando se fazia necessário, e os prejuízos pagos de acordo coma classe social, a idade e o sexo lesado. Tudo era resolvido a título privado. Os druidas, que intervinham como árbitros, só o faziam quando solicitados, e se limitavam a fixar le prix de la composition – o preço da honra. O único funcionário do clã era o intendente, que tinha por obrigação controlar os ganhos do rei.

Partindo-se do principio que as funções politicas da tuath eram de ordem domestica, e que o rei não era proprietário da terra, bem comum e indivisível, não é difícil entender que o rei governava como um chefe de família. O rei era um magistrado eleito, podia autorizar um membro qualquer da tuath a ocupar uma porção de terra para construir ou cultivar. Esse tipo de contrato, chamado cheptel, não implicava em qualquer obrigação, pagamento ou serviço particular por parte do beneficiado. O rei na verdsde não dava nem vendia a terra, ele apenas aceitava um locatário, que através do seu trabalho aumentava o bem geral da tuath.

Toda essa estrutura se articulava pela ação conjunta dos quatro elementos mantenedores das sociedade. O druida, na sua tripla função de Sábio, Vidente e Guardião da Tradição; a conjunção do Saber e da Ação, que eram exercidos solidariamente pela dupla druida/rei, os guerreiros/ heróis, investidos da força exemplar que se manifestava a serviço da paz; as Grandes Deusas, que coloriam com seus mistérios a vida de todos estes homens.

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